sábado, 19 de julho de 2014

Renato Zanata: futebol, blues e muito rock'n'roll


Renato Zanata é bluesman, amante de Peter Frampton e Iron Maiden e especialista em futebol argentino. Aproveitando o clima de Copa do Mundo, um bate-papo bem legal com esse niteroiense que venera o amor dos argentinos pelo rock'n'roll.

Ugo Medeiros - Como começou sua relação com a música? Já começou no blues?

Renato Zanata - Comecei em bandas no início dos anos 1980, inspirado por fitas K7 do Elvis, bandas como Iron Maiden, Rolling Stones, Eagles, Kiss e mestres da guitarra como Eddie Van Halen, Keith Richards e Robertinho de Recife. Mas nada disse teria rolado se não fosse o disco Comes Alive I do Peter Frampton. Ele foi o cara que me deixou literalmente ligado, plugado em guitarra, solos, shows, estrada. O disco Rise Up e o show que assisti no Maracanãzinho em 1980, vendo de perto aquele arsenal de guitarras que ele usou durante a apresentação e solos longos e de muito bom gosto, foram cruciais nessa história.
Paralelamente ao som da minha primeira banda,  Sexta 13, power trio de hard rock formado com os primos Otávio (baixo e voz) e Fábio Dellivenneri (bateria), surgiu aqui em Niterói , a saudosa rádio Fluminense FM, a "Maldita", capitaneada pelo mestre Luiz Antônio Mello. Através dela, o blues começou a me fisgar, via trabalho autoral do mago da Fender Stratocaster, o maestro Celso Blues Boy. Aí, vieram clipes do Clapton e do B.B.King na TV e a intenção de fazer um trabalho diretamente ligado ao blues foi amadurecendo. Comecei a tocar Blues no início da década de 90, quando participei das bandas, Rio Blues e Limousine 69 (depois passou a se chamar Holandês Voador) e nelas, já valorizava o trabalho autoral cantado em português, sem deixar de lado alguns covers do gênero. Nestas bandas aprendi muito com o amigo Charles Nobilli, doutor em Blues Rock cantado em português.
Em 1992, com o fim da banda Limousine 69, a frustração de ver um trabalho promissor de blues ser interrompido no meio do caminho, me afastou dos shows por cerca de 10 anos, apesar de continuar a ouví-lo e a tocá-lo em casa, e também registrar composições num esquema caseiro de gravação. Passei então, a tocar na noite, dando canjas em shows de MPB, com músicos amigos meus.
Em 2002, tirei da gaveta algumas fitas K7 com composições autorais de blues e gravei uma demo no estúdio de um ex-professor de guitarra, o mestre Íris Nascimento. Em seguida, consegui que meu som fosse tocado na rádio Viva Rio (ONG) e acabei conquistando um espaço nessa mesma rádio para produzir e apresentar um programa que se chamava Alma Blues.
Conheci então, produtores de eventos, como os amigos Arildo Bluesman, Paulo Vanzillotta e Denise do Amaral (projeto “Banca do Blues”), Marcio Kerbel, Diego Carvalho e vários músicos do cenário brasileiro de blues. Parti para um trabalho autoral com a Zanata & Blues Trio e de covers com o projeto acústico Roda de Blues. Já acompanhei e/ou dividi o palco com vários guitarristas e bluesmen: Victor Biglione, Big Gilson e Ugo Perrota (Big Allanbik), Otávio Rocha (Blues Etílicos), Gustavo Lazo, Julio Gallardo e Martin Luka (Argentina), Maurício Sahady (Atlântico Blues), Décio Caetano, Ricardo Giesta e o gaitista Jefferson Gonçalves (Baseado em Blues). Shows na Argentina, em Minas Gerais, na Ilha Comprida (litoral sul de São Paulo) e em outras cidades do Estado do Rio de Janeiro. Também sou o idealizador e produtor do NITERÓI DE ALMA BLUES FESTIVAL, que movimentou o cenário blues de Nikiti City por quatro edições, entre 2003 e 2007 (edição esta que contou com apoio da secretaria de cultura de Niterói).
Em 2006 lancei o EP independente intitulado Alma Blues, com quatro temas autorais, contando com as participações especiais dos guitarristas Big Gilson e Ricardo Giesta, da cantora Luciana Lazulli, do baixista Francisco Falcon, do naipe de metais da banda SouSoul, Betina Fishkel, Rosalvo Jr. e Marcelo Palermo, e de muitos outros amigos. Atualmente venho tocando nas apresentações ao vivo com Percy Hatschbach (vocal e guitarra da Salinas Blues Band), Ronaldo Cabral (baixo), Marvin Foster (guitarra e vocal) e Fernando Dias (bateria). 

UM - Quais as canções mais importantes para você, que mais mexeram e ainda mexem contigo? 

RZ - Breaking all the rules e Do you feel like we do, do Peter Frampton; Start me up, do Rolling Stones; Blues motel, do Celso Blues Boy; Crossroads, do mestre Robert Johnson; Texas flood, do Stevie Ray Vaughan; Little wing, versão do Stevie Ray Vaughan; Superstition, do Stevie Wonder; Hotel California, Eagles; The sky is crying, do Elmore James; Stairway to heaven, do Led Zeppelin; Detroit rock City, do Kiss; The number of the beast, do Iron Maiden; Pense e dance e Down em mim, do Barão Vermelho. 

UM - qual o seu top5 de banda?

RZ - Pensando em bandas, curto muitas, não necessariamente grupos cujo trabalho se encaixa dentro de um mesmo “tipo de som”. Eu destacaria, com enorme dificuldade para escolher apenas cinco: Rolling Stones, Cream, Lynyrd Skynyrd, Blues Etílicos e Iron Maiden.

UM - qual sua guitarra titular e sua aparelhagem em show?

RZ - É a Malena. Uma Relic Fender Stratocaster Highway One. Batizei a guitarra de Malena em homenagem a “baita interpretação” da bela atriz Monica Bellucci no filme italiano, Malena. Meu amplificador é um Fender Blues Jr. Quanto aos pedais, só uso três. Um Cry Baby Dunlop, um Micro Amp da MXR e um Turbo Over Drive da Boss.

UM - Quais os covers que nunca faltam em uma apresentação?

RZ - Não tem como deixar de tocar os clássicos, Crossroads, Hoochie coochie man, Got my mojo working, Before excuse me e The thrill is gone.

UM - Você é viciado em futebol argentino. Como começou?

RZ - O time que me fez gostar de futebol foi o Flamengo do meio para o final da década de 70, quando eu tinha meus 11 anos. E um baita ídolo daquele Flamengo era o argentino Narciso Horácio Doval, revelado no San Lorenzo de Almagro. Loiro, cabelo comprido, defensor das cores do rubro-negro carioca... não demorou e logo um vizinho e amigo do meu pai me apelidou de Doval. Depois, este mesmo vizinho, vascaíno doente, me apelidou de Zanata, meio-campista que deixou o Flamengo e foi atuar no "gigante da colina" (Vasco). Em casa, através do meu pai, que é apaixonado por futebol, nunca houve preconceito contra o futebol argentino e já naquela época, torci pela Argentina na final contra a Holanda, no mundial de 1978. A derrota daquela fantástica seleção brasileira de 1982 e, depois, da boa seleção de 1986, me fizeram prestar mais atenção ao futebol jogado na argentina, que justamente em 1986 conquistou seu segundo título mundial com o Maradona jogando barbaridade. Meu ídolo maior é o Zico, mas o que vi o Diego Armando Maradona fazer na Copa de 86 foi inesquecível. Passei a acompanhar os jogos do Napoli da Itália, só para ver o Maradona jogar. Enquanto eu admirava o futebol maravilhoso de um camisa 10 argentino que encantava o mundo, no Brasil as seleções pós 86 começaram a privilegiar mais os jogadores de marcação do que os encarregados da armação. O Brasil ia de Dunga e o Mauro Silva (bons jogadores) a Argentina escalava um ótimo Fernando Redondo no seu meio-campo. Resumindo: Passei a gostar de futebol porque admirava e admiro bons jogadores de meia cancha, como os antigos e tradicionais, camisas 8 e 10. A Argentina continua a produzir vários destes jogadores enquanto que no Brasil, quando 'surge' um Paulo Henrique Ganso, é a exceção que confirma uma regra que não me agrada. Perdi muito interesse pelos campeonatos disputados por aqui até começarem a vir para cá nomes como, Juan Pablo Sorín, D’Alessandro, Montillo e Conca.

UM - O amor do argentino com o futebol é igual ao do brasileiro. O mesmo não se pode dizer em relação ao blues e ao rock. Lá é algo muito comum, né?

RZ - Estive na Argentina duas vezes. Na primeira, em 2009, foi principalmente para tocar no Mr. Jones Pub, uma casa especializada em noites de blues, respeitadíssima por lá, com uma programação que inclui shows de ótimas bandas argentinas e destacados blueseiros brasileiros e norte-americanos. Toquei com o gaitista Gustavo Lazo e o baixista Júlio Gallardo. Sempre que tive a oportunidade de conferir a programação de algumas estações de rádios, em hotéis ou dentro dos bares e táxis, conferi que sempre estava rolando bandas de blues rock (eu não disse pop-roquinho!) da Argentina. Um contexto que não vi por aqui. Gosto muito da banda Intoxicados, que continha membros da Viejas Locas, e que se desfez justamente em 2009. Do som deles eu indico o som Las cosas que no se tocan, que foi tema do filme Elefante Blanco, estrelado pelo Ricardo Darín. O som da Intoxicados e o da Viejas Locas tem muito de Rolling Stones. Também me lembram a nossa saudosa e gaúcha, Garotos de Rua do mestre Bebeco Garcia. Isso sem falar do grande Norberto ‘Pappo’ Napolitano (Pappo's Blues) que foi e ainda um símbolo enorme para os argentinos amantes do blues e do rock’n’roll.


terça-feira, 24 de junho de 2014

Versões #20

Comemorando o vigésimo Versões, uma canção regravada por vários estilos. Talvez pelo clima de Copa do Mundo, uma bela música nascida no México, composta por Alberto Domínguez em 1939, gravada nos EUA, Espanha, Brasil, Itália, Jamaica... Ou, e por favor, não!, porque ela fala sobre traição e de corno, todos temos um pouco. 
São versões diferentes, mas a que mais me chamou atenção foi a do brasileiro Francisco Alves, que tão logo em 1941 fez um excelente trabalho. Além dessa, Benny Goodman, Nat King Cole, Alceu Valença, Laurel  Aitken e muitos outros!


Xavier Cugat




Glenn Miller



Francisco Alves



Benny Goodman



Trio Los Condes



Nat King Cole




Julie London



Ibrahim Ferrer



The Shadows



Ben E. King



Alceu Valença



Laurel Aitken



Phyllis Dillon



Altemar Dutra



Andrea Bocelli


King Tubby



terça-feira, 3 de junho de 2014

Retrospectiva Coluna Blues Rock

E lá se vão sete anos. Muito esforço, muita entrevista. Pouca mulher e nenhum dinheiro. Recebi muita recusa de entrevistas, uma ameaça de processo pela assessoria do Jim Page e outros estresses musicais. É claro, momentos bons são diversos e, por isso, farei essa retrospectiva do blog. Afinal, nem tudo o que escrevi é lixo. Dividi em quatro categorias: Resenhas de discos, Bandas, Opiniões cretinas e Top5 entrevistas. 


 RESENHAS!

Algumas resenhas de discos clássicos:

- Pink Floyd: The Piper at the Gates of Dawn (1967)

- Pink Floyd: A Saurceful of Secrets (1968)

- John Hammond Jr.: So Many Roads (1965)

- Super Session (1968)

- Replicantes: O Futuro É Vortex (1986)


OPINIÕES CRETINAS!
Alguns textos que incomodaram meia dúzia de gato pingado:

- Salada tropical. Ou: Rock in Lixo
http://colunabluesrock.blogspot.com.br/2011/05/salada-tropical-ou-rock-in-lixo.html

- Me bata, me espanque. Como ser roqueiro no Rio de Janeiro
http://colunabluesrock.blogspot.com.br/2011/09/me-bata-me-espanque-como-ser-roqueiro.html

- Ainda há deuses do rock?
http://colunabluesrock.blogspot.com.br/2009/02/ainda-ha-deuses-do-rock.html

- Ah, sim, ela também cantava...
http://colunabluesrock.blogspot.com.br/2011/08/ah-sim-ela-tambem-cantava.html

- Carta ao Sr. Caco Barcelos (Profissão Repórter)
http://colunabluesrock.blogspot.com.br/2010/11/carta-ao-sr-caco-barcelos-profissao.html

Não que eu seja jornalista, mas se alguma faculdade precisar de um candango para ministrar "crítica musical" ou "jornalismo musical", 'tamos aí"...




Top5 entrevistas!

- André Christóvam

- John Hammond Jr.

- Arthur Dapieve

- Eric Burdon

- John Mayall




sábado, 31 de maio de 2014

Versões #19


"I was born in a bunk/ Mama died and my daddy got drunk/ Left me here to die or grow/ In the middle of Tobacco Road". Sentiu o peso? Some uma guitarra blues, uma cozinha de funk, um vocalista de soul, uns teclados psicodélicos e... Viagem de minha parte? Nada disso! Tobbaco road, composta por John D. Loudermilk, originalmente em um blues lento, foi regravado pelo funk, hard rock e progressivo. Sua versão matadora foi de Eric Burdon & War, mas há outras sensacionais, como a do Jefferson Airplane e Spooky Tooth.

John D. Loudermilk



Lou Rawls



The Nashville Teens



The Animals



Eric Burdon & War



Jefferson Airplane



Rare Earth



Spooky Tooth



Edgar Winter



Blues Magoos



David Lee Roth




quarta-feira, 28 de maio de 2014

Entrevista Carmine Appice

Muito peso e swing, influenciado pelo R&B e blues-rock. Figura histórica do heavy metal. Tocou ao lado de Jeff Beck, Ozzy Osbourne e outros dinossauros do rock. Fundou o Vanilla Fudge, o Cactus e o fantástico Beck, Bogert & Appice. Um papo bem bacana com Mr. Carmine Appice!

Ugo Medeiros -
O Vanilla Fudge foi o precursor de um novo tipo de rock, um mix de hard, psicodélico e, na minha visão, um senso de humor não tão comum na época. Como você vê o nascimento desse som?

Carmine Appice - Era um tipo de som que nascia naquela área de Nova Iorque, entretanto a banda tinha quatro vocalistas e todos eram muito técnicos nos seus instrumentos. Dessa forma, conseguimos fazer essa "mistura" com a nossa cara. Era como um "R&B-heavy metal sinfônico". Claro, com um toque de psicodelia.

UM - A química entre Tim Bogert e você era bem forte. Como você o conheceu?

CA - Nos conhecemos quando o Mark Stein e ele me viram em uma apresentação, em um clube de Nova Jérsei. Ali me chamaram para entrar na banda deles e nascia o Vanilla Fudge. O Tim Bogert foi o primeiro baixista elétrico com quem eu toquei.

UM - O Cactus foi uma das bandas de hard rock mais importantes da história. Você considera a banda como um Vanilla Fudge mais maduro e visceral?

CA - O Cactus era uma banda de blues-rock com um som completamente diferente. O Cactus tocava músicas mais rápidas, já o Vanilla Fudge tinha um repertório mais lento e pesado.

UM - O Cactus foi taxado como o Led Zeppelin americano. É claro, o Zeppelin era uma grande banda, mas você não acha que a mídia os protegiam e os tratavam como "deuses", de forma desproporcional e até irresponsável? [fique à vontade para discordar ou não responder]

CA - Eles eram uma grande banda. O Cactus era a versão americana do Zeppelin, a Atlantic Records nos deu esse apelido. Eles ganharam essa mega projeção bem na época dos falecimentos do Jimi Hendrix e da Janis Joplin. Houve um hiato no mundo da música (até sob o ponto de vista midiático), e eles preencheram. 

UM - O Jeff Beck seria o guitarrista original do Cactus, mas ele teve um sério acidente de moto. Logo depois, Beck, Bogert & Appice foi a concretização daquela formação. Era uma super banda! Como foi essa experiência com o Jeff Beck?

CA - Cara, foi difícil! Naquela altura, era o maior guitarrista, mas nos deixou na mão! Saímos para turnê, mas ele saiu no meio e nunca completou o que nós três havíamos planejado.

UM - Um guitarrista mais coroa, certa vez, me falou que o bom músico é reconhecido com apenas uma nota. Acho que isso acontece contigo, você tem um estilo próprio. Como você o definiria?

CA - Um hard rock pesado com muito groove,  muita energia. 

UM - Você gravou e excursionou com grandes nomes de diferentes estilos. Você poderia falar rapidamente sobre alguns desses?

CA - Toquei com o Rod Stewart durante o seu auge. Sempre fez um excelente trabalho e é um cara correto nas relações e nos negócios. Tive uma experiência com o Ozzy Osbourne.  Apesar dele ser uma pessoa muito legal, a mulher manda na vida dele. A banda dele naquela época era muito boa. Tommy Bolin era um grande guitarrista, muito talentoso, mas era um viciado em drogas. Com o Pink Floyd foi algo estritamente profissional em tudo. [Nota do editor: senti na resposta, um ar de "frieza" da banda com ele. Outros músicos relataram o mesmo] 

UM - Por razões óbvias, Jimi Hendrix será sempre amado e alvo de muito interesse. Você teve o privilégio de excursionar com ele durante o período do Vanilla Fudge...

CA - Nós tocávamos (em bandas diferentes) em alguns clubes, mesmo antes dele se tornar "O" Jimi Hendrix. Mesmo após o sucesso e reconhecimento de ambos, tocávamos juntos quando dava e tínhamos uma relação bacana.

UM - Quais os bateristas que te fazem falar: "Nossa, esse cara é de outro planeta..."?

CA - Terry Bozzio e Billy Cobham, esses caras sempre piraram a minha cabeça!

UM - Você também se dedica bastante à licenciatura. Qual conselho você daria aos jovens que desejam seguir como baterista?

CA - Se você sente que tem talento, aprenda com um professor. Você tem que ter paixão pela coisa. A paixão te faz praticar todo dia. Sem paixão você não terá saco. Depois que você praticar todo dia, procure tocar com outros músicos. 

UM - Deixo esse espaço para um recado final ao público brasileiro.

CA - Agradeço do fundo do coração a todos que me acompanham desde o início. Sem vocês nada disso seria possível! Me sigam no Facebook em Carmine Appice Himself e no Tweeter em @CARMINEAPPICE1 .


Alguns vídeos:









sábado, 24 de maio de 2014

Entrevista Eric Burdon

Essa é uma daquelas entrevistas históricas, afinal bater um papo com um mito do rock não é algo que aconteça todo dia. O cara fundou o The Animals, conviveu com bandas como Rolling Stones e The Experienced. Cantou do R&B ao funk. É dono de uma das vozes mais versáteis do rock. Senhoras e senhores, tenho a honra de apresentar, Mr. Eric Burdon!

Ugo Medeiros - Você nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, em Newcastle. Você lembra da música daquela época? Ao menos, alguma que tenha te marcado?

Eric Burdon - Eu me lembro de algumas canções, sim. We'll meet again, da Vera Lynn, e You belong to me, da Jo Stafford. Canções de amor que aqueciam os corações dos combatentes espalhados por todo o mundo, tudo isso através das ondas de rádio. Essas composições estarão sempre no meu DNA. Depois, já durante a minha juventude, escutei Shame shame, de Smiley Lewis, no filme Baby Doll. Naquele momento descobri que a minha vida seria toda ela com a música, ela me iluminou. Recentemente, escrevi uma música chamada Wait, em que tento dar o "sabor" daquelas gravações. 






UM - Claramente, você tem influência do R&B e soul. Antes do nascimento e boom do rock, esses eram os estilos que você mais escutava? Você poderia falar um pouco das bandas que mais te marcaram?

EB - Jazz, R&B e blues puro foram os estilos que me deram uma "porrada" desde o princípio. O rock veio depois, como uma extensão óbvia desses estilos. Ray Charles, Big Joe Turner, Smiley Lewis, Fats Domino, Chuck Berry, e a lista segue...

UM - Você viu o rock nascer no Reino Unido. De fato, tudo começou com Elvis? Você poderia descrever aquela explosão cultural? Digo, você e seus amigos, como jovens ingleses, como reagiram?

EB - Muitos artistas americanos, como John Lee Hooker e Muddy Waters, estavam sem trabalho nos EUA. Portanto, eles vieram para a Europa e foram recebidos de braços abertos pelos inúmeros fãs. Eles se tornaram a trilha sonora das nossas vidas.

UM - Eu já escutei do John Mayall que Londres tinha uma cena de ska jamaicano muito forte e influente durante os anos 1960...

EB - Sim, e o blues acontecia ao mesmo tempo. O Reino Unido é uma ilha com uma grande população, faziam-se vários estilos ainda desconhecidos nos EUA. Dentre esses estilos, o Skiffle, do qual saíram os Beatles. A Inglaterra era um grande caldeirão, uma "mistureba", e muitas pessoas não têm essa noção.

UM - Quem teve a ideia de gravar House of the rising sun? Como foi o clima durante as gravações?

EB - Fui eu, pois já estava familiarizado com a canção através de gravações folk, na minha cidade natal. Lembro perfeitamente de escutá-la em pubs e clubes locais. Quando escutei a versão de Bob Dylan, fiquei ainda mais atraído pela canção e procurei uma desculpa para incluí-la no nosso repertório. Durante uma turnê que abríamos para o Chuck Berry, queríamos uma canção que não soasse como o resto do repertório, algo para "encantar" o público. Tocamos durante um show e vimos a reação do público. Foi incrível! 

UM - Chas Chandler (baixista do The Animals) deixaria a banda para produzir o Jimi Hendrix. Você teve um maior contato com o Hendrix? Você se lembra da primeira vez que o viu em ação? Você também poderia falar um pouco sobre o Chas Chandler?

EB - Sinceramente, estou escrevendo minhas últimas recordações sobre o Hendrix em meu novo livro. Fui indagado sobre isso tantas vezes que decidi colocar o tema para "descansar". Deixem o homem descansar em paz!

UM - Uma vez que você estourou no Reino Unido, foi para os EUA, país de praias e clima um pouco mais quente. Isso afetou a sua música, não? Entrar na banda War foi uma consequência natural? A banda era simplesmente MARAVILHOSA e ainda dava um "tapa na cara" do racismo...

EB - Na verdade, eu já tinha ido aos EUA anos antes de ingressar no War. Toda aquela cena de São Francisco... e viver em Laurel Canyon foi mágico! Mas toda aquela questão do racismo nas ruas estava apenas se aquecendo. Eu encontrei a banda que representava a demografia de Los Angeles em seu microcosmo.

UM - Você é uma das vozes mais versáteis do rock. Os The Animals tocavam rock, blues e um pouco de psicodélico. O War era soul e funk ácido. Na sua carreira solo, você tocou com músicos de diferentes estilos. A sua carreira solo é, de fato, uma síntese de tanta influência boa?

EB - Acho que sim, todos esses estilos, mais um pouco de jazz e gospel, são os que eu amo. Eles sempre estiveram em mim, mas em momentos diferentes. Obrigado pelo elogio!

UM - Você é de uma geração de bandas fantásticas: Rolling Stones, Yardbirds, Beach Boys, Family, etc. Cada uma com um som próprio, sua peculiaridade...

EB - Como te falei, no começo, todos nós fazíamos gigs (pequenas apresentações) nas nossas cidades natais. Não havia rivalidade. Os Beatles quebraram a barreira do Oceano Atlântico e nós seguimos o exemplo deles, entretanto NUNCA nos vimos como parte de uma "invasão britânica"! Éramos todos amigos unidos pelo amor à música negra americana. Claro, todas as bandas tinham um som próprio, e adorávamos o som dos outros.

UM - Sei que é uma pergunta cruel, mas meu amigo Francisco Antunes pediu para perguntar os cinco discos que mais te marcaram.

EB - Recentemente me perguntaram qual é o meu disco favorito e eu respondi Genious+Soul+Jazz, Ray Charles. Apenas cinco discos é bem difícil, mas eu diria: James Brown Live at the Apollo, Are You Experienced? do Hendrix, The Inflated Tear do Rahsaan Roland Kirk. Eu gosto demais dos discos do Bob Dylan e do Neil Young. E, também, do meio da carreira dos Beatles, entre RevolverSgt. Pepper.

UM - Você acha curioso o fato do rock ter nascido nos EUA, mas logo as bandas inglesas terem dominado a antiga colônia (risos)?

EB - O rock and roll foi "punido" nos EUA a ponto dos seus melhores músicos serem "expulsos". Muitos vieram para os EUA ganhar a vida com a juventude inglesa, havia uma multidão de fãs realmente apaixonados por aquela música.

UM - Você em diferentes formações, com muita gente boa. Qual mais te marcou? Se você pudesse escalar integrantes para uma superbanda, qual seria a formação?

EB - Sinceramente, não gosto dessa coisa de superbandas, não acredito nisso. O grande desafio da música é fazer algo sempre bom, novo e diferente. Eu amo sempre a banda que toco agora.

UM - Recentemente você gravou 'Til Your River Runs Dry...

EB - Sim, esse disco é o resultado de eu ter alcançado os 70 anos, de tudo pelo que passei na vida e o mundo ao meu entorno, pelas perdas e coisas que eu sou grato.

UM - Você esteve em Monterey, em 1967. Você poderia falar um pouco sobre aquele festival que marcou o nascimento de uma geração?

EB - Foi como um grande sonho psicodélico. Nós todos fomos "abraçados" por aquele momento, acreditando que realmente mudaríamos o mundo com amor e rock and roll. De fato, foi o nascimento de uma geração, mas o último suspiro de inocência antes que as coisas ficassem bem sérias e perigosas. Dois anos depois, o Festival de Altamont. Se Monterey foi o nascimento, Altamont foi o grito de desesperado por socorro. Não foi apenas o concerto em sim, mas a guerra, os assassinatos de Bobby Kennedy e Martin Luther King, Charles Manson, etc. A coisa ficou escura.

Para mais informações acesse: www.ericburdon.com


Alguns vídeos:










terça-feira, 8 de abril de 2014

Olho nele: Enio Vieira

Guitarrista de pegada, blueseiro sem medo de adicionar peso, Enio Vieira é mais um destaque da cena carioca. Ao lado da banda Winchester 22, tem feito "barulho" de qualidade no Saloon79. Um papo muito interessante, com um cara conhecedor de música!

Ugo Medeiros - O rock sempre foi o seu norte musical? Como começou essa relação? O que você escutava naquela época?


Enio Vieira - Sim, sempre foi, essa relação se deu muito pelos meus pais, porque eles sempre ouviram muito Rock e Country. Também, porque desde pequeno eu sempre fui fascinado por música e pela guitarra. Me lembro que o primeiro disco (vinil na época) que eu pedi foi Creatures of The Night do KISS. Eu tinha assistido ao clipe de I love It loud em um programa que passava na extinta TV Manchete, apresentado pelo João Kleber e um outro cara, e fiquei extasiado com aquilo tudo, as maquiagens, mas principalmente a música. Lembro, como se fosse hoje, a sensaçao de ouvir aquilo, foi indescritivel! (risos). Na época, ouvia, muito do que meus pais ouviam: Eric Clapton, Willie Nelson, Fleetwood Mac, Johnny Cash, Warren Zevon e Kiss naturalmente (risos).

UM - Você também tem claras influências de blues. Me arrisco a dizer que Stevie Ray Vaughan seja uma das mais fortes, né? 

EV - Na verdade, a coisa do blues começou com o Eric Clapton. Comprei um disco dele chamado Journey Man, de 1988 se não me engano. Nele, havia uma faixa chamada Hard times, que é um blues daqueles bem lentos mesmo, e aquilo criou raiz em mim lentamente. Entretanto, antes do Blues se instalar mesmo, veio o Guns'n'Roses, o Slash era meu guitar hero. Ele tem muito de blues no fraseado e eu acabei pegando isso. Muitos anos depois, por ironia, comprei aquele mesmo disco do Clapton em CD e um cara com quem eu tocava na época (eu era batera de uma banda de classic rock) me pediu emprestado. Ele me deixou o Texas Flood do Vaughan, nem preciso dizer que nunca mais destrocamos os CDs né? E, aliás, eu voltei a tocar guitarra logo em seguida (risos). Fui completamente tomado por aquele som, desde então se tornou a mais forte, se bem que ultimamente tenho procurado outras direções dentro do próprio Blues/Rock. Tenho escutado incessantemente o último disco do ZZ Top, La Futura, é sensacional! O timbre, tanto de guitarra como de vocal, do Billy Gibbons é absurdo!

UM - Você poderia falar um pouco sobre a banda que te acompanha? 

EV - São caras com quem eu estive em contato desde sempre. o Nobru (Bruno Lima, baixista) eu conheço desde que ele era pequeno, ele é amigo de infância do meu irmão (o rapper Shawlin, sete anos mais novo que eu). Daí quando ele começou a tocar, nós nos aproximamos mais, ele tocou no Tatu Bala e no AC/DCover. Pedro Tererê (Pedro Schoeter, bateria) eu conheço de vista há anos, eu inclusive fiz aula de bateria com o pai dele (Gustavo Schroeter do A Cor do Som) no Antonio Adolfo. Sempre nos esbarrávamos pelos points de rock aqui no Rio, além de conhecer muita gente em comum. Ele tocou em várias bandas da cena alternativa como Cabeça, Funk Fuckers, Jason e Vulgue Tostói. Antes dele vir tocar comigo, nós tocamos juntos na banda de um amigo meu chamada Som Sebastião, onde eu fazia uma participação em alguns shows e ele era batera.

UM - Qual o seu set de instrumentos e aparelhagens para shows? 

EV - Eu sempre fui o tipo de guitarrista 'plug and play', mas, com o tempo, eu vi que ia precisar de um set de pedais mesmo que fosse mínimo. Então eu montei um bem básicão que consiste em: um TU-3 da Boss (afinador), um Tube Sreamer TS-9 (Ibanez), um Microamp (MXR) booster e um Cry-Baby (Dunlop). Guitarras eu não tenho muitas, a minha principal é uma Stratocaster Shelter (traditional series) que eu troquei a captação original por um set TEX MEX da Fender. Essa série da Shelter tem uma história curiosa, porque ela é (fisicamente) uma réplica de uma Fender '62, tanto que a fender processou a Shelter: ou eles pagavam uma quantia a Fender ou mudavam as stratos que eles fabricavam. Eles preferiram mudar, então hoje em dia é bem difícil achar essas guitarras. Minha guitarra sub foi um presente de um amigo, é um frankenstein na verdade, uma strato Squier que tinha um braço com escala em maple (que tem um timbre mais agudo) daí eu troquei por um braço Fender com escala em Rosewood (eu prefiro), ela tem captação lipstick da Seymour Duncan, que dá a ela uma pegada mais leve. Recentemente eu comprei uma outra Shelter, uma Les Paul Nashville, troquei a captação por dois Gibson Pearly Gates (ponte e braço). Deixei ela no Luthier essa semana, se tudo correr bem, ela vai assumir o posto de guitarra titular (risos). Estou buscando um som mais cheio e potente e com uma timbragem não tão similar a do Stevie Ray Vaughan, não que eu vá 'abandonar' o velho Stevie (risos), mas quero incorporar mais elementos ao meu som em termos de características.

UM - Você tem se destacado ne cena blues rock carioca, principalmente no Saloon79, e tem tocado com a "velha" guarda. Como tem sido a experiência e a recepção de gente como Big Gilson? 

EV - Tem sido muito bom, na verdade, eu trabalhei no SALOON 79 como barman durante dois anos e lá acontecia um evento chamado "Big Gilson Convida" produzido pelo José Milton. Consegui encaixar minha banda e tanto o Gilson quanto o José Milton piraram no som, ficaram amarradões e eu fiquei nas nuvens! (risos). Um cara do calibre do Big Gilson elogiando meu trabalho, eu fiquei feliz pra caramba! Depois disso, outras bandas que iam lá tocar começaram a me chamar pra dar canja nos shows, Big Phat Mamma, Laranjeletric, Tarantinos, Stanleys, Paul Serran, Mauk e os Cadillacs Malditos. Abriu portas com certeza. Uma dessas canjas aconteceu de forma bem inusitada, uma noite, o Big Gilson estava fazendo o tributo a Eric Clapton lá no Saloon e eu, como sempre, atrás do balcão trabalhando. Lá pelas tantas, ele começou a tocar Old love e em um determinado momento desçeu do palco (ele usa sistema sem fio). Estava eu lá na minha, trabalhando, quando de repente eu ouço ele me chamando, quando eu viro ele está me passando a guitarra por cima do balcão! Eu só tenho tempo de ouvir ele me dizendo o tom (que eu tá já sabia, porque faz parte daquele CD do Clapton que falei antes). Eu até hoje não faço idéia do que eu fiz ali (risos), eu sei que quando eu acabei de solar o bar inteiro aplaudia, pessoas urravam, assobiavam, foi muito foda! 

UM - Há planos para gravar um disco? Autoral ou cover? Aliás, quais covers que nunca faltam nos shows? 

EV - Sim, com certeza! Até o final do ano vamos gravar um EP com umas seis músicas autorais, a pré-produção começa em Julho. São básicamente as músicas que eu toco nos meus shows e algumas mais novas, ainda vamos fazer a seleção para que o EP sintetize bem o trabalho. Até agora vamos lançar de forma independente, mas, é claro, se algum selo se interessar estamos abertos a negociações! (risos). Covers que nunca saem do repertório, são Voodoo child (Hendrix tem que ter sempre) e Strange face of love (Tito & Tarantula). Essa segunda, Sonja Paskin (cantora profissional) canta ela nos shows fazendo participação especial, na verdade, essa é a música da "participação especial". No último show tivemos o Ricardo Abrahin (Tarantinos/FM 80) cantando ela, de maneira geral sempre temos convidados, até o Tony Rocker (dono do Saloon 79) de vez em quando canta com a gente.

Confira-o em ação!





segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Versões #18

Inspirado, embalado, nocauteado... APAIXONADO! Esse é o clima de Love is here to stay, composição do maior gênio da música norte-americana, George Gershwin, destinada ao filme The Goldwin Follies (1938). A canção transcende o mundo material e nos guia através do amor. Que leveza! Uma balada, uma declaração à amada, um brinde à ingenuidade de um recém casal. Impossível o coração não derreter com um som tão doce. Versões de Frank Sinatra, Oscar Peterson, Rod Sterwart, Bill Evans e muitos outros! 


George Gershwin

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Dinah Washington

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Frank Sinatra

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Bill Evans

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Ella Fitzgerald & Louis Armstrong

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Oscar Peterson

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Nat King Cole

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Ray Charles

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Stan Getz

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Rod Stewart

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